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quarta-feira, 12 de abril de 2017

O filho eterno, de Cristovão Tezza.


Semana passada terminei de ler "O filho eterno", de Cristovão Tezza. O livro recebeu vários prêmios, não que prêmios digam algo. Muitas vezes não dizem é nada rs, mas neste caso dizem sim. O livro é muito bom e te prende. Algumas passagens surpreende pela "crueza" da forma como é retratado o sentimento do pai pelo seu filho, como nas que ele pensa que gostaria que o filho morresse. Bem, o livro conta a história de um pai, sustentado pela esposa, escritor de romances sem sucesso e que se vê com um filho com síndrome de down. O desgosto é tanto que ele deseja que o filho morra muitas vezes e até evita falar dele com outras pessoas para que elas não perguntem sobre "os problemas" do garoto. Na verdade, o problema é mesmo com ele que não consegue aceitar o filho da forma como ele é. O livro se passa na década de 1980 e podemos perceber as diferenças de tratamento de uma pessoa com síndrome de down daquela época e as de hoje em dia. Naquele tempo se dizia que não viviam muito, que não podiam andar sozinhos na rua, as escolas ainda não tinham a estrutura necessária para atender essas crianças... Infelizmente, embora hoje em dia exista a lei da inclusão, muitas escolas ainda não estão preparadas. Voltando ao livro... Com o tempo, Felipe vai se desenvolvendo, seja com a ajuda da natação, dos médicos ou da arte, através dos seus desenhos, e o pai começa a percebê-lo de maneira diferente. A meu ver, a relação do pai para com o filho muda no dia em que este sai de casa sem que ninguém o veja e o pai vai atrás dele. O final do livro é muito bonito e a obra como um todo nos mostra o amadurecimento da relação entre o pai e o filho, de uma maneira muitas vezes crua, dura, mas talvez por isso mesmo, muito bonita. 



segunda-feira, 3 de abril de 2017

Admirável mundo novo, de Aldous Huxley.


Admirável mundo novo é um daqueles livros que você lê e que lhe dão uma sacudida do seu lugar comum. É um livro excelente, que embora escrito na década de 1930 ainda se faz muito atual. Um verdadeiro clássico da literatura! A obra narra um futuro distópico, no qual as pessoas são condicionadas a fazerem o que quer o Estado, em nome da estabilidade social, pois "não há civilização sem estabilidade social e não há estabilidade social sem estabilidade individual". Os seres humanos são criados em série, a partir do processo Bokanovsky e condicionados desde cedo, a partir do sistema hipnopédico, em que as lições eram repetidas ao extremo durante o sono dos "indivíduos" (Entre aspas porque não há individualidade. Há um monte de gente que forma um todo), para que ficassem gravadas em seus inconscientes. As pessoas não sabem lidar com problemas, tristezas, guerras, pois tudo isso desestabilizaria o indivíduo e a sociedade, e consequentemente a civilização. Para não lidar com as dores/ problemas/ sofrimentos do dia-a-dia cada cidadão recebe uma dose diária de soma, uma espécie de inibidor de emoções. Já não há família, casamento, relações duradouras, pois estas são coisas antigas que não servem para a civilização atual. A sociedade é dividida em castas, tendo cada uma delas um papel social significativo dentro da sociedade e é importante que todos os grupos desempenhem bem os seus papéis, para que a sociedade não se desestabilize. Os únicos livros que se conhece são os livros que falam como manter a sociedade em bom funcionamento. John, o "selvagem", do povo que mantém os antigos costumes, é quem terá o hábito de ler os livros de Shakespeare. O "selvagem" é mais civilizado que os civilizados, que já não têm pensamentos próprios e não admiram as artes e as ciências... Deus é substituído por Ford. Sim, aquele mesmo que inventou a produção em massa, já que tudo nesta sociedade é fabricado em massa, até mesmo os humanos e as suas identidades. Não há um Deus como o conhecemos. Apenas o "Selvagem" é que possui uma ligação com Deus. O "Selvagem" que tanto queria conhecer o Admirável mundo novo, mas que ao conhecê-lo, perceberá que ele não é tão admirável assim. A ciência aqui não é nossa aliada, mas nos desumaniza e nos "desindividualiza". Um excelente livro, que faz você perceber que, embora as coisas apresentadas no livro sejam absurdas, elas estão mais próximas de nós do que imaginamos. Vale muito a pena ler!!!

quarta-feira, 22 de março de 2017

Jane Eyre, de Charlotte Brontë.


Terminei de ler recentemente "Jane Eyre", de Charlotte Brontë. Bem, sem sombra de dúvidas este é um dos melhores livros que já li, daqueles que te prendem e é quase impossível você parar de ler. O livro conta a história de uma órfã, que vai viver com a sua tia e é maltratada por esta. Um belo dia, resolve revidar as acusações que a tia lhe faz e esta resolve lhe mandar para um colégio interno. Talvez no colégio interno seja o lugar em que ela sentirá o primeiro alívio na vida, ao conhecer Hellen, uma garota doente e muito conformada com a ordem das coisas no mundo, ao contrário de Jane, que sempre as contesta, questionando o papel da mulher na sociedade em que vive e querendo sempre mais do que a ela é destinado naquele momento na sociedade inglesa. Jane não é extremamente bonita, e isso sempre é muito bem colocado no livro, a colocando sempre em contraste com as suas primas ou com outras personagens femininas, como a pretendente do Sr. Rochester, mas é inteligente, pinta bem, é sagaz, sempre apresentando uma boa resposta e questionando o mundo e exatamente por isso é que o seu patrão, Edward Rochester, acaba se apaixonando por ela, mas um segredo do passado dele acaba os separando. Talvez seja importante dizermos que o Sr. Rochester também não é bonito, pelo menos Jane não o acha bonito da primeira vez em que o vê, nem da segunda, mas com a construção da relação deles, o amor vai os tornando bonitos aos olhos um do outro. Uma outra coisa que merece ser destacada aqui é o tipo de relação que Jane mantém com o Sr. Rochester e com St. John. O Sr. Rochester a ama justamente por quem ela é, ele realmente a admira, enquanto St. John quer casar-se com ela e a transformar numa mulher de missionário, o que meio que tenta fazer lhe dando aulas de hindu. É interessante notarmos em St. John que embora o seu amor por Deus seja grande e sua vontade de fazer obras em nome Dele também, ele parece que não consegue manter uma relação mais próxima com as pessoas, seja numa amizade ou num relacionamento amoroso. Como Jane Eyre é um belo exemplar do romantismo inglês, espere ver cenas com um toque um tanto quanto gótico e muitas descrições a respeito do cenário. Há uma certa pitada de sobrenatural no livro, mas aos poucos vamos desvendando o mistério. Com certeza a obra de Charlotte Brontë merece ser lida por todos aqueles que gostam de um bom livro. Recomendo!!!

quinta-feira, 12 de maio de 2016

É isto um homem?, de Primo Levi.


Esta semana acabei de ler "É isto um homem?", de Primo Levi. Não posso falar por todos, mas quando acabei de ler o livro não pude deixar de fazer a pergunta "Eram homens aqueles nos campos de concentração ou eram já espectros de homem? No livro, Levi conta as suas experiências num campo de concentração e, como, estando lá, o que importava era viver, mesmo que a moral e a consciência do certo e errado fossem deixados de lado. Temos violência, privações, maus tratos, perda de identidade, pois os prisioneiros nem seus nomes portavam mais, apenas seus números de matrícula, de acordo com a chegada no campo. No livro, vemos que muitos prisioneiros roubavam ou se aliavam ao inimigo para a sua própria sobrevivência. E quem poderia julgá-los? muitos de nós faríamos a mesma coisa naquelas precárias condições e sem perspectiva de muito tempo de vida. Abaixo, um dos trechos do livro que achei mais marcantes:

Pela primeira vez, então, nos damos conta de que a nossa língua não tem palavras para expressar esta ofensa, a aniquilação de um homem. Num instante, por intuição quase profética, a realidade nos foi revelada: chegamos ao fundo. Mais para baixo não é possível. Condição humana mais miserável não existe, não dá para imaginar. Nada mais é nosso: tiraram-nos as roupas, os sapatos, até os cabelos; se falarmos, não nos escutarão – e, se nos escutarem, não nos compreenderão. Roubarão também o nosso nome, e, se quisermos mantê-lo, deveremos encontrar dentro de nós a força para tanto, para que, além do nome, sobre alguma coisa de nós, do que éramos. (LEVI, 1988, p.32)

Levi consegue sobreviver pela sua formação em Química, por estar doente no momento em que os alemães fogem dos soviéticos e abandonam o campo, não participando assim da conhecida Marcha da morte. Sobreviveu porque em muitos momentos deixou a sua consciência de lado para lutar pela sua vida. "É isto um homem?" é um livro que todos deveriam ler, para que nunca mais deixássemos preconceitos e intolerâncias roubarem a nossa humanidade. Um livro que verdadeiramente nos tira de nosso lugar comum. Relato cru e belíssimo das vidas nos campos de concentração!

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida.

A primeira vez que li "Memórias de um sargento de milícias" foi para o vestibular da UPE, no longínquo ano de 2002. Como não passei, li novamente em 2003 e destas duas leituras o que me ficou foi que Leonardo era filho de uma pisadela e de um beliscão. Tive que (re)lê-lo mais uma vez este ano e foi uma leitura completamente diferente, bem mais atenciosa que das outras duas vezes e com um novo olhar. Um olhar de quem estuda literatura há quase cinco anos (não que eu saiba muita coisa sobre Literatura. Quanto mais estudo menos sei e acho que justamente aí é que reside o interessante do estudo rs). Foi realmente  um exercício interessante. Bem, o livro gira em torno de Leonardo, o tal filho da pisadela de Leonardo Pataca e do beliscão de Maria. Leonardo é o protagonista, mas o autor também dá destaque às outras personagens, como o padrinho e a madrinha de Leonardo. Personagens estas, em sua maioria, das camadas populares da sociedade carioca do século XIX. Leonardo é uma espécie de anti-herói romântico. Enquanto o Peri de Alencar é um cavaleiro medieval dos trópicos, Leonardo é um fanfarrão por natureza. Gosta da vida boa sem fazer esforço para merecê-la. E desde criança é assim. Todo mundo enxerga isso, menos o padrinho, que teima em ver sempre o melhor lado de Leonardo. A sua vida ao lado do padrinho é uma das coisas que o diferencia dos pícaros espanhóis, que de acordo com Antonio Cândido, no início são ingênuos e a brutalidade da vida os faz ficar espertos com o decorrer da narrativa. Para Cândido, Leonardo não pode ser considerado um pícaro, pois a vida não lhe foi difícil, ele já nasce malandro por natureza. O romance tem um quê de romance de costumes. Somos apresentados a muitos costumes da sociedade carioca da época e podemos ter uma certa noção de como ela funcionava. Pra mim, o romance tem  um quê de identidade brasileira, bem mais que os romances indianistas de Alencar, que têm como principal proposta essa busca por uma identidade brasileira. Afinal de contas, somos conhecidos no mundo todo pelo nosso não tão agradável jeitinho brasileiro de resolver as coisas. Como o Leonardo. O livro é bom, não é uma leitura chata, embora alguns termos precisem ser pesquisados para não se perder o sentido da leitura e faz refletir sobre as (des)continuidades da sociedade brasileira do século XIX até os dias atuais. Recomendo!!!

terça-feira, 12 de maio de 2015

Fogo morto, de José Lins do Rego.

Terminei de ler quase agora o romance "Fogo morto", de José Lins do Rego. Esta obra é considerada por muitos como a obra-prima do escritor. Não posso dizer se é a obra-prima, pois nunca li todos os seus livros, mas posso dizer que a obra é realmente muito boa. Bem, o livro é narrado em terceira pessoa e é dividido em três partes. Cada parte tem o nome de uma personagem principal. A primeira é "O Mestre José Amaro", um celeiro que mora nas terras do Engenho Santa Fé. Um homem que orgulha-se de não trabalhar pra ninguém e de não levar gritos de outrem. Mora com a filha, Marta, e a mulher, Sinhá. Aos poucos, a sua vida vai desmoronando. A filha enlouquece e vai para um sanatório e a mulher vai morar na casa dos compadres, acreditando nos boatos do povo de que o marido se transforma em lobisomem. Fora isso, a casa em que José Amaro morava é pedida pelo dono da terra, o Seu Lula. O final de Amaro é trágico e será conhecido na terceira parte do livro. 
A segunda parte do livro chama-se "O Engenho de Seu Lula" e narra a história do Engenho Santa Fé, desde a chegada do Capitão Tomás Cabral de Melo até os dias atuais. Aqui, a história faz uma visita ao passado para narrar as origens do Engenho Santa Fé. Mostra como o Capitão Tomás trabalhou e administrou bem o seu engenho, ao passo que o genro, Seu Lula, meio que colocou tudo a perder, pois era um homem estudado, que não se interessava pelas coisas do engenho e passava o dia a ler jornais. Fora que era bastante autoritário e vivia batendo nos negros de seu engenho. 
A terceira parte é "O capitão Vitorino". O Capitão Vitorino Carneiro da Cunha tem um quê de Dom Quixote, lutando pelos fracos e oprimidos e pelo que acha que é certo e justo. Não leva desaforos para a casa. 
Como o livro narra a decadência dos engenhos e de seus senhores (um engenho vira fogo morto quando deixa de produzir açúcar), vemos aqui a decadência de José Amaro e de Seu Lula e também do Engenho Santa Fé. Temos a ascensão gradual do Capitão Vitorino na política. Vemos que há um forte apego às antigas posições ocupadas por estes homens e às patentes que foram compradas à Guarda Nacional. 
Personagens presentes em "Menino de Engenho" também estão presentes aqui, como também alguns cenários: O Santa Fé, o Coronel José Paulino, o Capitão Antonio Silvino, o Pilar (cidade onde o escritor nasceu). Alguns temas também estão presentes nas duas obras: a loucura (temos Marta e Olívia loucas) e o cangaço. Lins do Rego também coloca em sua obra personagens que realmente existiram, como é o caso de Antonio Silvino, um cangaceiro que existiu de verdade e que antes de Lampião aparecer era o nome mais ilustre do Cangaço; de Dantas Barreto e de Rego Barros, entre outros. 
 O livro também mostra as ligações que os bandos de cangaceiros tinham com alguns senhores de engenho, que os protegia em troca de alguma proteção também. Os amigos eram protegidos e os inimigos atacados. Como o livro tem muito das memórias de José Lins, que também viveu em um engenho e presenciou o processo de decadência deles, temos um retrato da época e uma noção de como foi o processo de decadência dos engenhos e de seus senhores. Aqui deve-se guardar as devidas proporções, pois o livro é uma obra de arte e embora tenha um certo tom memorialista não tem um compromisso com a verdade, mas com a ficção e a literatura.

terça-feira, 22 de abril de 2014

Menino de engenho, de José Lins do rego.

O segundo livro que li no feriadão foi Menino de engenho. Também adorei a leitura. E o bom é que é uma leitura rápida e fácil. O autor faz questão de utilizar palavras conhecidas de nós, nordestinos, embora eu tenha utilizado o glossário algumas vezes. Sim, a edição que eu li, se não me engano a 102ª, tinha um glossário. O livro é baseado nas memórias de José Lins e pode ser considerado herdeiro direto do Modernismo brasileiro, uma forma genuína de uma literatura brasileira, pelo seu falar e pelos seus cenários. O livro conta a história de Carlinhos, que vê sua vida transformada quando o seu pai, num acesso de loucura, mata a sua mãe. O pai vai para um hospício e Carlinhos vai morar com o avô materno no Engenho Santa Rosa. A vida no engenho vai moldando quem Carlinhos é. das travessuras com os moleques às iniciações sexuais tempranas, o engenho fica em Carlinhos assim como Carlinhos vai preenchendo o seu lugar no engenho. Um livro excelente e que vale muito a pena ser lido!!!

O Quinze, de Rachel de Queiroz.

Esse feriadão pra mim foi muito proveitoso no quesito leitura. Consegui ler dois livros em dois dias, o que não ocorria há um tempão. Um deles foi O Quinze. Achei maravilhoso. Um livro que foi publicado originalmente em 1930 e até hoje permanece tão atual. Pelo menos para nós, que moramos aqui no Nordeste. O livro trata da grande seca de 1915, que Rachel ouvia as histórias quando criança. Os anos passaram, mas a seca ainda constitui um problema para nós. E o estragos que ela causa ainda são os mesmos. Ouvi falar que o livro causou estranheza a alguns quando foi publicado. Primeiro por ser uma mulher a sua autora. e tão nova. E segundo pelo tema. A dureza e a veracidade com que Rachel trata o tema. O livro conta duas histórias: a de Conceição, uma professora que não casou, apaixonada pelo seu primo Vicente, que depois perderá o encanto, e neta de mãe Nácia, a quem leva para morar com ela quando a seca aperta. Conceição ajuda no Campo de Concentração, o lugar em que os refugiados da seca procuram por alguma ajuda. E a história de Chico Bento, que sai da fazendo em que trabalhava a pé com sua família, procurando chegar ao norte, onde para ele era um lugar em que havia esperanças. No meio da trama, a sua história se entrelaça à de Conceição, por meio do pequeno Manuel. Este é um livro que vale muito a pena ser lido. É de fácil leitura, rápido de ler e nos traz um cenário muito real do que é a devastação da seca. Muito bom!!!

quinta-feira, 13 de junho de 2013

O cortiço, de Aluísio Azevedo.

Essa semana li O cortiço. Ultimamente tenho que me virar nos 30 pra ler tanto quanto os professores estão mandando. Tá uma correria só... Afff!!! Mas tudo passa.... Ou piora de vez (a probabilidade maior é essa!). A primeira que li o livro eu tinha 19 anos e tava me preparando para fazer vestibular pela 3ª e última vez (se não passasse, pois já tava de saco cheio rs). Uma cena que me lembrava é da que Leocádia ao ir transar com Henrique atrás do cortiço tira a saia molhada para não pegar corrimento. 
Gosto muito desse livro. Na releitura, vi coisas que não lembrava e pude ver também coisas novas. Me lembrei das aulas de literatura que tive com um professor chamado Fernando num pré-vestibular que fiz lá na UFPE, em 2002. Adorava as aulas dele. E elas foram um dos motivos que me levaram a fazer Letras... 
Mas vamos à obra. O cortiço é um exemplar do Naturalismo brasileiro. Nesta corrente, o uso do zoomorfismo é latente. As personagens são sensuais, movidas pelos desejos e pelos impulsos sexuais. O homem é produto do meio (determinismo) e como o positivismo e o culto à ciência estavam em alta, tudo era visto pelo viés sanitário e como uma doença. 
Várias personagens aparecem no livro, mas a personagem principal, a meu ver, é o próprio cortiço, que personifica-se por meio das páginas escritas pelo autor. Entre as personagens, temos João Romão, o dono do cortiço, que passa as maiores provações para ficar bem de vida e que inveja o seu vizinho Miranda, principalmente quando este torna-se barão. Bertoleza, que ajuda como ninguém o João Romão a subir de vida e no fim das contas tem um fim trágico. Pombinha, que era pura no início do livro e depois de "desvirtua". Rita Baiana, uma mestiça, altamente sensual que sabe como provocar os homens e conseguir o que quer deles. Firmo, capoeira e amante de Rita Baiana. Jerônimo, português, responsável, trabalhador e que ao apaixonar-se por Rita Baiana se desestrutura todo (uma clara ode ao determinismo). Piedade de Jesus, casada com Jerônimo e depois abandonada por este. Termina os dias como alcoólatra. No fim das contas, o cortiço acompanha a mudança de seu dono. Outras camadas sociais passam a morar ali, como jornalistas, artistas, operários. Posso estar enganada, mas acho que esse também é um dos primeiros livros brasileiros a tratar de uma relação homossexual. 
É um livro que vale a pena ser lido, quer como obra de arte, quer como retrato de uma determinada época da História do Brasil...

domingo, 17 de março de 2013

Orgulho e preconceito, de Jane Austen.

Eu simplesmente amei o livro da Jane Austen. E essa edição da Penguin vem com uma introdução com vários estudos a respeito da obra, situando-a no contexto histórico e revelando as influências de obras e ideias presentes no mundo da autora e que foram fundamentais na escrita do romance. Mas deixemos de fazer propaganda da Penguin né? A história gira em torno de Elizabeth, que depois de Capitu, é lógico, passou a ser minha personagem favorita na Literatura. Que criatura encantadora! Ela e sua irmã mais velha, Jane, são os miolos da família, pois o pai gosta mesmo é de ler, a mãe só pensa em arranjar bons casamentos para as filhas, Mary gosta de refletir e Lydia e Kitty só pensam em rapazes e casamento.
Tem que se ter um pouco de atenção ao ler a obra, pois a linguagem é a típica linguagem da época. E eu acho que o livro passa muito bem a questão do casamento, como era importante para as moças fazerem bons casamentos e manter-se casta, pois todas as outras moças da casa dependiam de sua castidade. E os bailes? As grandes oportunidades para se arranjar um pretendente. E como as irmãs Bennet frequentavam bailes...
E o Mr. Darcy, que homem!!! Quero um desses pra mim rs... Tido como orgulhoso, por ser calado, não era nada daquilo e ainda mudou para provar à sua amada que a merecia.
Uma coisa que achei interessante neste livro é que a autora apenas cita o nome da personagem, não as descreve fisicamente (cor de cabelos, olhos, etc), o que é de certa forma bom, pois deixa a sua imaginação fluir para que possa construir as personagens da maneira que achar melhor... 
Uma coisa que intriga é que não há uma única menção a beijos, mas acho que por não ser muito corrente na época... 
Neste ano em que o livro completa 200 anos, acho que uma boa forma de comemorar é lendo-o, nem que seja para saber porque mesmo após 200 anos ele continua sendo tão popular... Fui neste caminho e acabei me apaixonando pelo livro. Cuidado para não se apaixonar também...

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Como agua para chocolate.

Hoje de manhã eu terminei de ler Como agua para chocolate. Resolvi comprá-lo em espanhol. Já que eu estudo espanhol, pra alguma coisa tem que servir esse aprendizado, né? E fora que lendo no idioma original, você tem uma outra relação com o texto...
Entre receitas, nós vamos conhecendo a história de Tita, contada por sua sobrinha-neta. Quando começa o livro, Tita tem 15 anos. Quando termina, está com 39.  Tita está enamorada de Pedro, mas quando conta a Mamá Elena que ele irá pedir a sua mão, descobre que não pode casar-se, pois é a filha mais nova e tem que tomar conta de sua mãe até que ela morra. Com esta, a pobre Tita não contava... Para ficar perto de Tita, Pedro aceita se casar com a sua irmã, Rosaura... Durante os anos Tita aguenta calada o seu destino, até o dia em que explode e resolve dar um basta à situação. Já não aguentava mais os maus tratos de Mamá Elena. Depois a gente descobre o porquê de Mamá Elena ser tão amarga. Pelo menos eu achei que é uma justificativa... o fim talvez seja meio óbvio, mas como diria Elyson, em partes, pois o livro em muitas passagens um que de fantástico, pelo menos me pareceu assim... Se bem que o último capítulo começa com uma certa dubiedade... Só depois a gente dá nome aos bois...
O livro é muito bom pra quem gosta de cozinhar, pra quem gosta de um bom livro, de uma boa história...
Algumas coisas eu tive um pouco de dificuldade pra entender, pois não sabia o que queria dizer a palavra e nem tinha como ver no dicionário, porque o li entre as minhas idas e vindas pela Macaxeira... Mas pegava as palavras pelo contexto e no fim acho que deu tudo certo... Amei o livro!!!

terça-feira, 27 de setembro de 2011

A Hora da Estrela, de Clarice Lispector.

Semana passada estava em uma palestra e o carinha que tava falando disse que Literatura é aquilo que te tira do lugar comum. Aquilo que te faz pensar. Aquilo que te provoca. Pois bem, Clarice Lispector me causa isso. Me faz sair do meu lugar-comum, me faz pensar e repensar a respeito do que ele narra. Acho que Clarice mexe no fundo de nossas almas, como poucos escritores conseguem. Ela nos faz enxergar que nossas vidas não são tão boas e felizes quanto queremos que elas sejam...
Mas vamos ao livro... Eu o comprei para lê-lo porque eu ia assistir a uma palestra sobre ele lá na Saraiva e num queria chegar na palestra voando... E também porque eu já tinha ouvido muito falar sobre esse livro, então uni o útil ao agradável...
O livro narra a história de Macabéa, uma nordestina que vai morar no Rio de Janeiro depois da morte da sua tia, que é a sua única ligação com o mundo até aquele momento. Na cidade grande, ela é mais um entre tantos, não é notada. Os seus únicos elos de ligação com o mundo são Raimundo (seu patrão) e sua colega de trabalho, a Glória. Posteriormente, Olímpico, o seu namorado também nordestino, que posteriormente a deixa para ficar com Glória, que é carioca e que tem um pai que tem um açougue. E o sonho de Olimpíco de Jesus era trabalhar em um açougue... 
Macabéa só é notada quando morre, na sua hora da estrela, depois de sair de uma cartomante, madama Carlota, que lhe viu um bom futuro ao lado de um marido estrangeiro, enquanto que a moça que saiu antes dela estava chorando porque a cartomante a disse que ela seria atropelada. Macabéa morre atropelada por um estrangeiro. Ao ler, eu pensei: será que madama Carlota errou o jogo de cartas, trocando o destino das duas? Ou será que a vida de Macabéa era tão miserável a ponto dela querer-lhe dar um sopro de vida? Foi a partir do encontro com madama Carlota que Macabé a finalmente sentiu-se gente.No início do livro, Clarice diz a respeito da personagem: "Ela somente vive, inspirando e expirando, inspirando e expirando", mas pra mim, a passagem que melhor descreve Maca é: "Há os que têm. E há os que não têm. É muito simples: a moça não tinha. Não tinha o quê? É apenas isso mesmo: não tinha". Macabéa num tinha nada: presença de espírito, vida, energia, força. Muitas vezes lendo o livro deu-me raiva daquela criatura, mas em muitas outras me deu uma dó imensa... Penseo que quando Clarice escreveu esse livro pode ter sido para denunciar o modo como os sulistas e sudestinos tratam o povo nordestino quando ali estão ou talvez para nos lembrar que muitas vezes temos Macabéas em nossas vidas e as ignoramos por acreditar que elas não têm nada a ver conosco.
Além de contar a história de Macabéa, o livro narra como Rodrigo S. M., o falso criador utilizado por Clarice Lispector escreve a história. Na palestra que fui, falaram em narrador prismático, pois o Rodrigo S. M. se confunde com a Clarisse e às vezes com a própria Macabéa. Rodrigo/Clarice fala da dificuldade de se colocar uma história num papel, pois não sabe como fazê-lo, que não sabe como as pessoas aceitarão e se aceitarão, por se tratar de uma história como outra qualquer, que poderia ser escrita por qualquer outra pessoa...
Eu adooooreiiiii o livro e recomendo... E agora fiquei curiosíssima pra assistir ao filme com Marcélia Cartaxo fazendo Macabéa...