Semana passada estava em uma palestra e o carinha que tava falando disse que Literatura é aquilo que te tira do lugar comum. Aquilo que te faz pensar. Aquilo que te provoca. Pois bem, Clarice Lispector me causa isso. Me faz sair do meu lugar-comum, me faz pensar e repensar a respeito do que ele narra. Acho que Clarice mexe no fundo de nossas almas, como poucos escritores conseguem. Ela nos faz enxergar que nossas vidas não são tão boas e felizes quanto queremos que elas sejam...
Mas vamos ao livro... Eu o comprei para lê-lo porque eu ia assistir a uma palestra sobre ele lá na Saraiva e num queria chegar na palestra voando... E também porque eu já tinha ouvido muito falar sobre esse livro, então uni o útil ao agradável...
O livro narra a história de Macabéa, uma nordestina que vai morar no Rio de Janeiro depois da morte da sua tia, que é a sua única ligação com o mundo até aquele momento. Na cidade grande, ela é mais um entre tantos, não é notada. Os seus únicos elos de ligação com o mundo são Raimundo (seu patrão) e sua colega de trabalho, a Glória. Posteriormente, Olímpico, o seu namorado também nordestino, que posteriormente a deixa para ficar com Glória, que é carioca e que tem um pai que tem um açougue. E o sonho de Olimpíco de Jesus era trabalhar em um açougue...
Macabéa só é notada quando morre, na sua hora da estrela, depois de sair de uma cartomante, madama Carlota, que lhe viu um bom futuro ao lado de um marido estrangeiro, enquanto que a moça que saiu antes dela estava chorando porque a cartomante a disse que ela seria atropelada. Macabéa morre atropelada por um estrangeiro. Ao ler, eu pensei: será que madama Carlota errou o jogo de cartas, trocando o destino das duas? Ou será que a vida de Macabéa era tão miserável a ponto dela querer-lhe dar um sopro de vida? Foi a partir do encontro com madama Carlota que Macabé a finalmente sentiu-se gente.No início do livro, Clarice diz a respeito da personagem: "Ela somente vive, inspirando e expirando, inspirando e expirando", mas pra mim, a passagem que melhor descreve Maca é: "Há os que têm. E há os que não têm. É muito simples: a moça não tinha. Não tinha o quê? É apenas isso mesmo: não tinha". Macabéa num tinha nada: presença de espírito, vida, energia, força. Muitas vezes lendo o livro deu-me raiva daquela criatura, mas em muitas outras me deu uma dó imensa... Penseo que quando Clarice escreveu esse livro pode ter sido para denunciar o modo como os sulistas e sudestinos tratam o povo nordestino quando ali estão ou talvez para nos lembrar que muitas vezes temos Macabéas em nossas vidas e as ignoramos por acreditar que elas não têm nada a ver conosco.
Além de contar a história de Macabéa, o livro narra como Rodrigo S. M., o falso criador utilizado por Clarice Lispector escreve a história. Na palestra que fui, falaram em narrador prismático, pois o Rodrigo S. M. se confunde com a Clarisse e às vezes com a própria Macabéa. Rodrigo/Clarice fala da dificuldade de se colocar uma história num papel, pois não sabe como fazê-lo, que não sabe como as pessoas aceitarão e se aceitarão, por se tratar de uma história como outra qualquer, que poderia ser escrita por qualquer outra pessoa...
Eu adooooreiiiii o livro e recomendo... E agora fiquei curiosíssima pra assistir ao filme com Marcélia Cartaxo fazendo Macabéa...


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